sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Escolhas

 

Abri os olhos, me sentei, balancei a cabeça, como se quisesse colocar as ideias no lugar.
Demorei um pouco para entender o que tinha acontecido.
Eu não sentia dores.
Estranhamente, eu não sentia dores.
Pedaços da minha moto estavam espalhados pela rodovia.
Pessoas chorosas andavam para cá e para lá...
Uma ambulância chegou. 
Parou bruscamente.
Dela saíram três paramédicos correndo.
Dois foram direto para o carro que estava virado de ponta cabeça, no meio do canteiro central da rodovia.
O outro correu até o acostamento, e começou a procurar.
As pessoas apontavam para a rodovia, para o carro que capotou e para os pedaços da minha moto.
— Estranho... — falou uma moça se dirigindo a mim.
— O que é estranho?
— Eu não sinto dores.
— Você também se envolveu no acidente?
— Sim... — ela murmurou me olhando encabulada. — Você é o cara da moto?
— Sou. — respondi. — Eu também não sinto dores. Também estou achando estranho, mas deve ser a adrenalina.
— Não é a adrenalina, — falou um homem entrando na conversa.
— Como assim? — perguntou a moça.
— Você está vendo aquele saco ali ao lado do seu carro?
— Estou...
— Seu corpo está lá dentro.
— Ela morreu? — eu perguntei arregalando os olhos.
— Morreu, uai! — respondeu o velho colocando a mão no ombro da moça. — E você, — continuou o velho se dirigindo a mim — vê aquele capacete ali no meio da rodovia?
— Sim... Ele deve ter saído quando a gente bateu.
— Não,  — respondeu o velho com um sorriso de canto de boca — o que saiu foi a sua cabeça!
— Caraca, velho! Então eu também morri... Que bosta! E você ainda sorri?
— É que são tantas pessoas que venho buscar, que pra mim, a reação de vocês é sempre engraçada.
— Meu Deus, meu senhor! — falou a moça com cara de choro. — Eu não estou achando graça nenhuma.
— Me desculpe Isabel Cristina. Eu não vou mais sorrir.
— Puxa vida! Eu estava no meu último ano de faculdade. Estudei a vida toda. Tinha arrumado o estágio dos meus sonhos.
— Eu sei minha filha... Mas infelizmente a vida é passageira, e acaba num piscar de olhos.
Eu caminhei até o capacete. Não podia ser verdade o que aquele velho estava dizendo.
Cheguei até ele, me abaixei, tentei pegar, mas minha mão atravessava o capacete, como se eu fosse feito de vento.
Caralho! — pensei — O velho está falando a verdade.
Quando percebi que tinha morrido, as pessoas da cena do acidente, os carros, os paramédicos e as ambulâncias sumiram de repente! 
Um vento forte, que começou com cheiro de enxofre e terminou com perfume de lavanda, bateu em meu rosto.
Nisso, dois carros se aproximaram de mim.
O velho desceu de um deles, e um cara estranho, de terno preto, gravata borboleta, chapéu-coco vermelho e sorriso brilhante, desceu do outro.
— Nós viemos buscar vocês dois. — falou o cara do terno.
— Eu não te ofereço nada, a não ser paz, e uma boa recuperação. — falou o velho.
— E eu, — começou o cara do terno, como se fosse um vendedor de comercial de aplicativo chinês — ao contrário desse aí; ofereço esse mundo todo! Ofereço riquezas, ofereço reinos, dinheiro, poder...
Eu olhei para a moça, que estava ao meu lado, com a cara ainda chorosa, e perguntei:
— E aí? Qual a gente vai encarar?
— Acho melhor a gente ir com o velho.
— Porque você acha isso?
— Porque, pelo menos no meu caso, eu vivi correndo atrás de riquezas, poder, dinheiro, bens materiais, a vida inteira.
— É... eu também.
— Então — cochichou a moça no meu ouvido. — E olha a cara de malandro desse cara de terno.
— Verdade... — decidi. — Vamos com o velho. Quem sabe a gente descançe um pouco.
Dizendo isso, a gente entrou no carro do velho, que sorriu para o cara do chapéu-coco e disse:
— Lú... Seu discurso tem que mudar...
— Vá pro inferno Gabriel!
— Eu não... Lá vocês se vestem muito mal. Esse seu terninho preto já está batido demais.



terça-feira, 26 de agosto de 2025

Simplicidade

 




Para noites frias, recomenda-se um bom cobertor.
Para dias quentes, recomenda-se uma grande sombra.
Para chuva, um guarda-chuva.
Para as tribulações da vida... Fé!
Para grandes problemas, recomenda-se olhá-los de cima para baixo, afinal, somos maiores que eles.
Os monstros só existem para quem acredita neles.
O dia é cansativo para quem não gosta do que faz.
Para dor de cabeça, recomenda-se Doril, afinal, como dizia minha avó:
— Tomou Doril, a dor sumiu.
Mas... dormir bem, sorrir bastante e ter pensamentos positivos, economiza o dinheiro do Doril.
Para fome, recomenda-se comida!
Arroz com feijão é muito bom. Experimente!
Para sede, recomenda-se água!
Para absorver conhecimento, recomenda-se ler um bom livro.
Minha avó não dizia que uma maçã por dia, faz uma criança sadia; mas eu ouvi isso por aí, na época em que minha avó ainda estava por aqui.
Eu digo: Uma porção de leitura por dia, faz uma mente sadia.
Seja a mente da criança, adolescente ou adulto.
Ou seja: No final o que eu recomendo?
Simplicidade, fé e leitura.
Isso já é 70% de caminho andado...


sábado, 23 de agosto de 2025

E depois... um sorriso sincero.



Essa é a minha participação no coletivo de postagens pelo aniversário de 16 anos do blog da amiga Roselia:





https://www.idade-espiritual.com.br/


Rosélia, minha amiga! Obrigado por me convidar para participar desse evento tão importante que é o aniversário do seu blog. 

Isso só poderia vir de alguém muito bacana e carinhosa com os amigos e a gente sabe que você é assim. 
Uma pessoa sem máscaras.
Eu fiquei muito feliz! Obrigado!





Carmen era o estereótipo de "mulher fatal."
Dessas que, quando desfilam pelas ruas — sim ela não apenas andava, ela desfilava — param o trânsito.
Linda, inteligente, bem sucedida, empreendedora, descolada... Ela era o exemplo de mulher a se seguir.
Suas redes sociais bombavam.
Se ela postasse a foto de um café da manhã, pelo menos três mil visualizações e mais de 500 comentários era o mínimo que se esperava.
Ela era uma deusa e sabia disso.
O pior, ela assumiu esse status de deusa e acreditou nele. Sabia do fascínio que causava. Sabia que a personagem — mulher perfeita — assombrava a mente de quem a conhecesse.
Se fosse homem, certamente cairia apaixonado e se fosse mulher, a inveja ou a adoração brotaria em seu coração.
Ela, acostumada com a fama, não ligava, quando muitas pessoas a acusavam invejosamente de ser a mascarada! De viver um mundo de redes sociais, onde nada é o que parece ser.
"Minha máscara é ser sexy e inteligente." — ela pensava consigo mesma.
Um dia Carmen foi escolhida a patrona do jantar beneficente da Associação dos Amigos dos Animais dos Jardins, um bairro muito glamoroso de São Paulo.
Nesse jantar, empresários, influencers e personagens da alta sociedade paulistana, marcariam presença; para usar a máscara de amigo dos animais, o que os ajudaria em suas reputações.
As nove horas em ponto, Carmen estacionou sua Lamborguini na porta do evento. Um manobrista se aproximou e abriu a porta para ela descer.
Carmen olhou para o rapaz e sentiu o cheiro do suor daquele homem. Um calafrio percorreu desde a base de seu pescoço até o cóccix. 
Os feromônios exalados pelo rapaz, causaram um curto circuito dentro dela. 
— Olá Carmen. — disse o rapaz, de uma forma quase abusada, sem pompa e sem a atenção que uma mulher daquele calibre necessitava.
— O... O... Olá... — respondeu ela tentando entender o que estava acontecendo.
— Eu posso estacionar seu carro.
— S... sim, po... pode! — murmurou Carmen, entregando a chave para o rapaz.
"Meu Deus!" — pensou ela se dirigindo até o salão. — "O que foi isso que aconteceu comigo?"
Naquele instante Carmen se sentiu desmascarada! Nua de sua máscara de mulher fatal. Uma mulher desprotegida, diante de uma situação onde ela não tinha as rédeas.
Durante a festa, Carmen olhava para seus convidados e percebia que nada era real!
Pessoas que sorriam umas para as outras pela frente, e que pelas costas faziam cara feia.
Pessoas que pegavam nos talheres como príncipes e que se comportavam como robôs, querendo demonstrar mais educação do que tinham na verdade.
Pessoas gentis umas com as outras do mesmo nível, mas que nem olhavam para a cara dos garçons.
Carmen se sentiu péssima.
Péssima por ter caído na real.
Um instante em que um homem não fez nada de mais para tentar nada de mais com ela, foi um divisor de águas em sua mente!
Meia-noite, Carmen subiu ao palco onde o DJ tocava suas músicas e pegando o microfone, deu inicio ao seu discurso, antes do leilão que viria a seguir.
— Olá amigos,  — começou cabisbaixa — aqui estamos nós... Vestindo nossas máscaras de boa gente! Boa gente, no meio de pessoas importantes.
— O que ela está dizendo? — perguntou um.
— Ela bebeu? — murmurou outro.
— Eu mesma, — continuou olhando para o salão e encarando pessoas nas mesas — nem gosto de gato ou cachorro. Na verdade, só fui escolhida para ser patrona desse jantar, porque postei uma foto no Instagram, onde um gato atrevido, aparece deitado em uma mesa ao meu lado. Mas eu nem sei que gato é aquele.
— Meu Deus... — cochichou uma mulher, colocando a mão na frente da boca, enquando se encostava no ouvido da amiga ao lado. — A Carmen enlouqueceu?
— Tem muita gente aqui, que assim como eu, nem tem animal de estimação. Mas a gente sabe que posar de protetor dos animais, ajuda a sair bem na foto.
— Que droga! A Carmen está estragando o evento todo. — praguejou um dos representantes da Associação dos Amigos dos Animais.
— Mas nós temos nossas máscaras! — continuou a mulher fatal, agora vestindo sua fantasia. — E pelas nossas máscaras, pela manutenção do personagem que nós criamos... Vamos participar desse leilão e ajudar da forma como nunca ajudamos antes. Os animaizinhos merecem.
A gargalhada ecoou pelo salão! As pessoas fingiram que entenderam e disseram que a Carmen tinha feito uma jogada de mestre.
Foi a maior arrecadação de um jantar beneficente da história de São Paulo.
Terminado o jantar, no saguão do salão,  todos cumprimentaram a anfitriã e declararam que foi um sucesso.
Carmen, agora ciente que naquele momento era um personagem, sorriu para todos e agradeceu a participação no evento.
No final, ela se despediu do presidente da Associação e saiu tentando se concentrar em não desmoronar novamente diante da presença do manobrista.
Quando chegou na rua, ela se assustou ao ver a sua Lamborguini estacionada do outro lado da avenida. Então, um menino se aproximou dela e disse:
— A senhora é a Carmen.
— Sou. — respondeu ela assustada.
— Um moço me pediu para te entregar essa chave do seu carro e esse bilhete.
Carmen pegou a chave, e encabulada, atravessou a rua e entrou em seu carro. Antes de sair, ela leu o bilhete:
"Carmen, me desculpe me passar por manobrista. Mas eu apostei com meus amigos que iria dar uma volta no seu carro hoje. Não fique brava."
" Filhodaputa!" — pensou Carmen dando um sorriso. — "É por isso que ele estava suado e cheirando a macho! Ele estava estressado pelo momento."
Ainda sorrindo, ela abriu seu celular, entrou em seu Instagram e pensando por um momento, titubeou, mas, deletou sua conta.
"Pra mim chega de viver de aparências." — pensou ainda com sorriso nos lábios.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Chatos e rebeldes


Tem uma música da banda Garotos da Rua chamada, "Eu toco Rock". Na letra, o cantor Bebeco Garcia grita cantando — ou canta gritando:
Eu toco Rock!
Eu não do bola pro resto,
pode dizer que eu não presto.
Não tenho nada com isso,
pode dizer que eu sou lixo.
Tá no fim...
... não tem futuro pra mim.
Me trata como bandido.
Me chama de caso perdido!
Prejuizo garantido...


Como é a vida né?


Uma vez na faculdade um professor leu um texto que dizia mais ou menos assim:
Essa juventude não tem vergonha!
É um bando de preguiçoso.
Não respeitam os pais!
Se vestem mal.
São chatos e mal educados.

Um texto normal para nossos dias. Afinal, a gente sempre reclama da juventude. Comparamos com nossa geração e dizemos que os jovens são um bando de frouxos. 

Nutellas! — bradamos do alto de nosso julgamento, como está na moda dizer.
Mas o problema, é que o texto acima, foi extraído de um papiro egípsio anterior a Cristo.
Olha só!

Meu pai era músico. Acordionista. Tocava pra caramba! Tipo fenômeno mesmo.
Tocou com vários cantores, e na época que morava em fazendas, ele era o showman. 
Carregava um baile de 4 horas, sózinho nas costas.
Naquele tempo os sanfoneiros — meu pai dizia acordionista e não sanfoneiro — faziam os bailes sózinhos ou acompanhados de um violão.
Ele tocava músicas "clássicas" para aquele público: valsas, boleros, músicas românticas, chorinhos e conções sertanejas raiz.
Uma vez ele me viu assistindo a um programa que passava na TV Cultura, chamado: Boca Livre.
Esse programa trazia bandas de garagem, punk e pós punk, que se enfrentavam em um festival que durava o ano todo.
Ele achou que eu estava usando drogas!
Falou que aquilo não era "música de gente!"
Ficou puto de raiva!
Ele tinha um sonho de me ver tocando acordeon... Até fiz aulas um bom tempo e até aprendi a tocar algumas músicas.
Mas não deu em nada!
Eu ouço rock e ouço blues.
Setenta por cento de meu tempo músical é escutando esses ritmos.
Na época eu fiquei revoltadinho com a negação do meu pai.

Com o tempo ele acabou aceitando um pouquinho o meu gosto musical.
O gosto dele — eu amava! E ele sabia disso...
Amava ver ele tocando. Realmente era um mestre.
Herdei dele o gosto por música clássica também. 
Chorinho é lindo demais e emociona. 
Banda e orquestra sinfônica também emocionam.
Adoro aquelas bandas de Charleston americamas, com banjo, violão, washboard e metais.

Hoje, eu tento não implicar com meu filho de 13 anos.
As vezes não consigo.
Acho essa geração parada demais.
Temos que falar mil vezes a mesma coisa.
Eles não tomam iniciativa... Mas e nós?
Nós éramos melhores?
Acho que no final, o que vai valer, é a desenvoltura quando as verdadeiras obrigações da vida chegarem.
Agora ele é criança e eu sou chato. Um chato cuidadoso e presente — mas sou chato.

O Bebeco Garcia morreu no começo dos anos 2000.
Nos seus últimos shows ele era considerado um dos melhores guitarristas do Brasil e o melhor no estilo slide.
Ele conseguiu superar seus monstros e os seus próprios julgamentos.
Ele ainda toca rock, mesmo depois de morto. 
Toca na minha vitrola.
Meu filho vai ter a vitrola dele.
E assim a vida vai tendo seu ciclo...
Viver é bom demais — sejamos nós os chatos ou os rebeldes do momento — viver é bom demais.






quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Seu Lourenço


Em dez minutos, eu conheci seu Lourenço.
Do nada, após um sorriso simpático, o velhinho de oitenta e cinco anos, me disse que foi criado na roça — sem pai — e quase sem mãe.
Aos seis anos já trabalhava “panhando” algodão. Aos dez, já fumava, e fumou até os vinte e cinco anos! 
Um dia, se levantou da cama e disse pra si mesmo: — À partir de hoje não fumo mais!
Não fumou mesmo, e também, nunca mais tomou café. 
Olha só! 
Ele disse que só o cheiro do café, até hoje — me "volta" na cabeça o gostinho do cigarro.
Seu Lourenço se mudou pra Barretos e começou a trabalhar como pintor de casas. 
Pintou mais de quarenta casas pela cidade, até que um dia, quando foi comprar pinceis em uma loja, conheceu o gerente de uma fábrica de tintas, chamada “Tintas Universo”. 
Seu Lourenço conversou muito com esse cidadão, e até saiu para almoçar junto.
Um belo dia o velhinho leu na Folha de São Paulo, que a Tintas Universo estava procurando um representante de vendas. Com coragem, ele, com pouquíssima escolaridade, trabalhador braçal, sem nunca ter ido a uma cidade grande, saiu de Barretos e foi parar na porta da fábrica de tintas.
Depois de uma tarde inteira de conversas, ele acabou sendo contratado não como vendedor, mas sim, para abrir mercados demonstrando o produto Brasil afora. 
— Quando eu vi que ele não ia me contratá como vendedor, porque ele disse com muita gentileza que eu não tinha estudado, eu falei pra ele que então eu podia demostrá a tinta nas cidades onde eles não tinha cliente.
A fábrica não tinha esse cargo e Seu Lourenço foi um dos primeiros demonstradores de tintas, diretamente de uma fábrica, do Brasil.
Ele me disse que conhece todos os estados do Brasil, conhece tanta cidade que nem sabe a quantidade. 
Trabalhou vinte anos na Tintas Universo e quando ela foi vendida para a Luksnova ele continuou na empresa e dela pulou para a Tintas Ypiranga que era do mesmo grupo, por mais de dez anos. 
Como complemento, acabou também sendo vendedor da massa plástica Iberê.
— O dono da Universo achou que eu não dava certo como vendedor, mas uma vez, eu vendi em um mês mais de vinte mil latas de massa plástica! Mas não posso reclamar. A Universo foi muito boa na minha vida.
— Um dia, comprei um Fusca! — ele falou levantando o dedo indicador e se ajeitando na cadeira. — Mas uns bandidos tentaram me roubar, me cercando na rodovia. Eles estavam agressivos e colocaram um revólver na minha cabeça. 
Eu respirei fundo e calmamente falei para um dos bandidos:
— Pode levar meu carro! Eu comprei ele sem precisar. Quando eu nasci eu não nasci com carro. Nasci antes do primeiro carro chegar no Brasil, então, eu não preciso dele pra nada.
Os assaltantes foram embora sem roubar o Fusca, e na primeira cidade que seu Lourenço chegou, logo deu um jeito de vender o carro e nunca mais dirigiu!
Seu Lourenço voltou pra Barretos depois de se aposentar e hoje mora em uma casa muito boa, num bairro chique da cidade. 
Suas duas filhas moram com ele. Cada uma delas é formada em mais de uma faculdade, e graças a Deus — ele tirou o chapéu quando disse graças a Deus — hoje ele até parece um velhinho, negro, humilde e com cara de pobre, mas a história de vida que tem, é pra poucos!
Em dez minutos conheci seu Lourenço! 
Tem gente que acha que perde dez minutos do dia, conversando com gente assim. 
Eu ganhei! 
Ganhei a oportunidade de conhecer alguém tão legal!
Ah! Seu Lourenço, antes de ir embora, olhou bem dentro dos meus olhos, apertou a minha mão, e sorrindo me deu dois conselhos:
— Menino, não compre nada que não precisar, não compre porque é bonito, ou porque está na moda, só compre quando tiver dinheiro pra comprar. Se não tiver dinheiro, não compre. 
Com o sorriso ainda estampado no rosto, tornou a olhar nos meus olhos e disse o segundo: 
— Quando ficar velho, e estiver perto de parar de trabalhar, seja viciado em palavras cruzadas! Elas não deixam o nosso cérebro enferrujar.
Dizendo isso, virou-se e foi embora. Talvez nunca mais eu tenha o prazer de ver seu Lourenço, mas com certeza, ele sempre vai estar presente. Algum dia, em algum pensamento, em alguma atitude minha ou simplesmente — fazendo palavras cruzadas.